09 Oct 2009

Gracias a Mercedes

Escrito por: Urariano Mota el 09 Oct 2009 - URL Permanente

Urariano Mota

No domingo, ao saber da notícia do falecimento de Mercedes Sosa, a minha filha disse à mesa: “e eu perdi... eu sabia que nunca mais ia ter outra oportunidade ”. Ela se referia a uma apresentação da artista no Recife este ano, a que ela não pôde ir. Esse “eu perdi” ficou. Mas era domingo, dia de trégua, e joguei ou perdi a má notícia a um canto, pensando que a esqueceria. Na segunda-feira, em meu blog, o leitor Joca Ramiro reclamou: acho que deverias escrever um texto sobre alguém a quem aprendemos a gostar e respeitar, mas que nesse domingo 04/10 nos deixou, nada mais nada menos que a divina Mercedes Sosa”.

E para evitar a emoção, como um capoeira malandro, evitei o golpe, fiz um círculo e me furtei. Mas se furtar à luta não é o mesmo que resolvê-la, porque o chamamento à roda nos clama, persegue e agarra: para onde vais, fujão? Agarrado então imagino que deve haver um modo de falar sem ir ao fundo, com um modo objetivo e esquivo. Algo como pesquisar, copiar e colar como se fosse um colador de figurinhas.

Na figurinha número 1 assim fala a primeira informação:

“Mercedes Sosa (San Miguel de Tucumán, 9 de julho de 1935Buenos Aires, 4 de outubro de 2009) foi uma cantora argentina de grande apelo popular na América Latina. Com raízes na música folclórica argentina, ela se tornou uma das expoentes do movimento conhecido como Nueva canción. Apelidada de La Negra pelos fãs devido à ascendência ameríndia (no exterior acreditava-se erroneamente que era devido a seus longos cabelos negros), ficou conhecida como a voz dos ‘sem voz’".

La Negra, porque descendente de índio na Argentina, é um pouco forte, não? Adiante. E já que falamos da negra, nos jornais vi a seguinte figurinha:

"Ainda sob o impacto da notícia da morte da cantora, no domingo, Braceli, que prepara um volume atualizado com histórias da vida de Sosa, falou à Folha sobre as memórias com 'La Negra', como era chamada.
Uma delas viveu com Milton Nascimento dentro do carro da cantora, que adorava dirigir em alta velocidade. "Íamos sete pessoas no automóvel - Mercedes, Milton e eu na frente. Perto do Aeroparque [aeroporto para voos domésticos em Buenos Aires], o carro parou em plena linha de trem. Ao longe, vinha uma locomotiva e, naturalmente, vivemos segundos de inquietação. Milton, não. Ele aumentou o volume do toca-fitas. Depois do susto, perguntei porque fez aquilo e ele disse: "Porque, se aquele era o final, seria o final mais feliz da minha vida". Escutávamos a Negra cantando uma música dele”.

Esses artistas, essa Negra Mercedes, esse Negro Milton... eles pegam e chamam a gente para valores fundamentais. Pois que prazer e felicidade são esses que os levam a fechar os olhos a ouvir acordes enquanto um trem avança sobre seus corpos? Como se pode morrer feliz aos pedaços da própria carne?

“Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como descifrar signos sin ser sabio competente,
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a dios”

Este colador profissional ouve agora a voz de Mercedes Sosa. E cola aqui o que lhe vem dentro: coisa boa é a mecânica, a tecnologia a serviço da arte. Graças a essa coisa fria, a essa mecânica, eletrônica, podemos ouvir agora uma vez mais La Negra. Aquela voz absoluta e total, quente como um leite de mãe gorda, que toma conta da gente em um grito:

“El tiempo pasa nos vamos poniendo viejos
Yo el amor no lo reflejo como ayer
En cada conversación cada beso cada abrazo
Se impone siempre un pedazo de razón”

Pero todo cambia, tudo muda, amiga:

“Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño”

Essa mudança, em lugar de nos trazer uma desesperança, uma angústia, quando olhamos os estragos que o tempo fez nos lugares e pessoas amadas, é também uma esperança para as coisas que construiremos, que agora são possíveis, porque, amiga Negra, tudo muda. Tudo muda, até mesmo ter um índio no governo da Bolívia. Tudo muda, até mesmo ver o Brasil como um personagem da história do mundo.

Um jornal argentino, de modo tacanho, anunciou há pouco, e esta é minha última figurinha: “El alma de Mercedes Sosa vivirá em Tucumán, Buenos Aires y Mendoza”, porque “parte de las cenizas de la cantora, fallecida el domingo a los 74 años, serán esparcidas en la ciudad mendocina de Guaymallén el domingo 18. La ceremonia se repetirá en la provincia de Buenos Aires y Tucumán, tres sitios fundamentales de la carrera de la querida ‘Negra’".

Que modo mesquinho e objetivo e burro de ver a realidade. As cinzas, que são matéria, e porque matéria, perecíveis, estarão de fato em Tucumán, Buenos Aires e Mendoza. Pero tu alma, Mercedes, es universal. Ela estará em todos os lugares onde cantemos e cantaremos gracias a la vida, que nos deu tanto, tanto, até mesmo uma cantante como tu.

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5 comentarios Escribe tu comentario

francesclopez dijo

Urariano, amic, gràcies a Mercedes i les seues cançons la vida és ún poc millor, deixava dit al meu bloc dies abans de morir, quan encara hi era a la clínica; després va faltar i vaig pensar que el millor homenatge era, com tu deies, seguir fent viva la seua herència, les seues cançons.
"Toda la gente quiere ser canción en el viento"

Urariano Mota dijo

Gracias, muito obrigado, por tua mensagem, francesclopez. Mercedes continua viva e presente, com sua alma em todo o mundo.
Forte abraço.

Alondra dijo

Bunas tardes Uranio.
Gracias por el merecido homenaje que haces a Mercedes. Descanse en paz.
Un abrazo, amigo.

Urariano Mota dijo

Em Olinda, Pernambuco, são 7.48 AM. Buenos dias, alondra. Gracias.
Abrazos.

Erick Alcântara

Erick Alcântara dijo

Muito comovente mesmo esse dia... Não esqueço deste domingo triste. Eu estava trabalhando quando minha mãe me ligou e disse que Mercedes Sosa tinha falecido. Confesso que não chorei de tristeza por que estava diante de muitas pessoas, mas fiquei o dia todo cabisbaixo. Estive com ela no camarim por alguns minutos no Show em Recife, este dia foi mágico para mim, estar diante da pessoa que mais admirei desde a infância. Bonita homenágem... Obg.

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