07 Ene 2009

A lusofonia permite-nos aos galegos sermos protagonistas deste tempo com a palavra própria

Escrito por: Ricardo Windsor Aveiro el 07 Ene 2009 - URL Permanente

A lusofonia permite-nos aos galegos sermos protagonistas deste tempo com a palavra própria. Com um idioma comúm, o português (ou português da Galiza ou galego-português ou como prefiramos chamar, mas um idioma ) permite-nos aos galegos sermos mais livres, mais internacionáis, menos fechados...

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Jurjo Souto: «A barreira que há chama-se política, chama-se ideologia»

Jurjo Souto: «A barreira que há chama-se política, chama-se ideologia»

«A lusofonia permite-nos aos galegos sermos protagonistas deste tempo com a palavra própria»

Segunda, 05 Janeiro 2009 00:00

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Jurjo Souto, actualmente subdirector de programas da Rádio Galega

Alexandre Banhos - Mostrar a Lusofonia como espaço dos nossos interesses, eis a intençom que temos ao abrir esta nova secçom de conversas no PGL. A primeira tivo lugar com o músico e divulgador cultural Jurjo Souto, condutor na Rádio Galega do excelente programa Aberto por Reformas.

Acompanhem a seguir a entrevista em primeira mão:

Alexandre Banhos: Jurjo, como chegaste ao mundo da Música.?

Jurjo Souto: De cativo sempre me prestou tocar a guitarra e outros instrumentos. Nos anos do instituto sentim o impacto da música folque, mas nom estava claramente convencido, até que entom decidim fazer música popular do nosso tempo, que foi a d’ Os Diplomáticos. Isso era fazer música do nosso tempo mas com as referências do lugar de onde éramos todos nós, e com os companheiros de instituto formamos essa banda.

Nom continues a perguntar por aí, que começo a falar dessa história e já nom paro.

A.B. - Mas tivestes muito impacto?

J.S. - Sim, tivemos impacto. Nós significávamos ser da Corunha, do bairro de Monte Alto, de aí o nosso nome: Os Diplomáticos de Monte Alto. Agíamos ante essa campanha sobre a Corunha que lançava Paco Vazquez, onde se apresentava a cidade como sendo monolíngüe em espanhol. Nós queríamos reflectir a realidade que vivíamos na nossa contorna com muitíssimos galegofalantes, e na casa éramos muitos os que tínhamos de língua familiar o galego. A Corunha é umha cidade mui inserida na Galiza.

A.B. - A Corunha como sabes, foi durante muito tempo o cerne do galeguismo...... bom, do lusismo na Galiza

J.S. - Sim, o que ocorre é que estamos no de sempre. É bem triste que triunfe a nível popular essa campanha de imagem populista e localista, ainda que seja normal e entendível. É triste, porém, que em contextos académicos e no mundo da informaçom, pessoas que deviam estar bem informadas, a repitam constantemente, sem a criticar. Isso vai contra a tradiçom galeguista da Corunha.

Os símbolos da Galiza xurdírom na Corunha. Eu som mui crítico com a ideia de que esse tópico populista seja repetido por pessoas que conformam o mundo académico e da informaçom, e que para muitos deles esse tópico seja umha referência de analise.

A.B. - A Galiza está muito balizada e os limites do que somos e como somos estám marcados polo estado. Estes limites funcionam para muita gente como garantia dos seus lucros mensais, dos seus ordenados. Achas que a música pode contribuir para modificar esses limites, para romper o nosso balizamento.

J.S. - Sim, é claro, porque falamos no território da evidência e da evidência emocional, é dizer, pode haver todo o tipo de preconceitos, todo o tipo de normativas de legislaçom mas, de súpeto, escutas o Valdemar Bastos ou Adriana Calcanhoto, umha cançom deles, e toca-che no mais intimo, já que utiliza as tuas palavras, as que te definem e fam-no no terreno das emoções. As nossas palavras som comuns para muita gente do planeta.

Falando com Valdemar, lembro que dizia que África tinha muito que contar à Europa e nós temos a sorte de que haja umha parte da África com que podemos entender-nos directamente, e essa é a realidade, umha realidade emocional que transcende essas balizas as quais tu aludes, e a essas limitações normativas e institucionais.

«Somos umha mesma língua, no entanto agora somo-lo com duas normativas e isso é umha verdade óbvia»

A.B. - Como pode alimentar a lusofonia a nossa criatividade, achas que já estamos a fazê-lo no campo musical ou ainda noutros?.

J. S. - As palavras estám feitas para a comunicaçom. De súpeto, descobrimos algo bem formoso superando carências originárias do que na escola e nos meios recebemos, a visom do mundo que nos dérom e, para superar isso, chega o poder das nossas palavras, e essas palavras permitem-nos relacionarmo-nos directamente com outros países do planeta. Da América ou desse continente- país a que chamam o Brasil, até com zonas exóticas do oriente, ou da África. Nesse sentido a lusofonia situa-nos no curso dos tempos.

Estamos num tempo de intercomunicaçom planetária e a lusofonia permite-nos aos galegos sermos protagonistas deste tempo com a palavra própria. E essa realidade contrapom-se com essa visom que dam da cultura nossa como de resistência atrás dum baluarte, pois se se assomar nom poderá resistir, de cultura de museu, que se mete num baú e se esteriliza falando de preservar a identidade diante de possíveis ameaças do exterior, e para cúmulo, das ameaças do lusismo.

Mas nós temos que dar um passo para avante, e esse passo para avante vai ser graças ao poder da palavra que nos permite ser universais (digo isto a partir do orgulho e do respeito a todos os povos que nom tenham esta vantagem) e encontramos assim umha via para ser protagonistas neste século XXI

A.B. - Quer dizer, tu és dos que afirmam, como fai o reintegracionismo todo, que a nossa língua é internacional.-

J.S. - Com certeza. Além disso, voltamos ao de antes. Existe umha série de debates políticos, académicos, sócio-lingüísticos etc., mas diante disso está o poder da palavra e a experiência da comunicaçom, e é essa experiência que cada um de nós vivemos, e que agora quando afortunadamente podemos viajar mais, e nom só virtualmente, se nos fai presente; chegas a territórios como a Guiné Bissau ou o Rio Grande do Sul, e resulta que falam um galego exactamente como o teu, mas cuidado: eles nom sofrem a erosom que padecemos.

Vou contar umha anedota. Eu gosto muito de ilustrar as cousas com anedotas. Umha vez participei num congresso sobre línguas minoradas que tinha lugar em Helsínquia, e quando estávamos a piques de entrarmos no Parlamento finlandês para umha sessom que ia ter lugar ali, um senhor pediu-nos para lhe tirarmos umha fotografia. Começámos a falar, todos em galego, e perguntámos-lhe de onde era, e dixo-nos que da Nova Escócia, mas que morara seis ou sete anos no Rio Grande do Sul. Entre nós havia umha comunicaçom absolutamente diáfana e, e graças a isso, em minutos pudemos entrar para além da superfície, na sua intimidade.

A sua história, pessoal e lingüística, era fascinante. Professor de direito, pertencia a umha minoria de cerca de quatrocentas pessoas que na Nova Escócia, na outra beira do Atlântico, continuam a falar gaélico escocês. Dizia-nos que, quando ele vinha às ilhas britânicas e falava inglês, este estava absolutamente marcado por um sotaque norte-americano, mas que quando ele falava gaélico, a gente mais velha destes falantes na Escócia começavam a chorar, porque tinha o seu sotaque parado no tempo, o sotaque que levaram os seus avôs à Nova Escócia. Este episódio tam formoso permite que acedamos a isso que é o poder da língua, por ser a nossa umha língua internacional, e ultrapassar os limites inseridos no estado espanhol.

«A fricçom, o contacto, o conhecimento mútuo, é o melhor instrumento contra o populismo separador»

A.B. - A riqueza lingüística é um grande património, umha riqueza da humanidade e um orgulho para todos, e especialmente para os seus falantes. Tanto respeito merecem as 700 línguas que tenhem menos de 20.000 falantes como as outras, mas é bem certo que as línguas universais, as que eu chamo do G-8 lingüístico, estám numha situaçom muito melhor para desenhar um futuro para os seus falantes. Nós temos umha língua do G-8 lingüístico que tem que correr contra outra que nos minora, o espanhol, que é também do G-8 lingüístico. Que che parece que essa corrida a fagamos pejados, e que nos apresentemos a ela como se fôssemos, por ex. o bretom.

J.S. - Insisto, isso nom é um simples problema linguístico que nós tenhamos, é um problema político de imposiçom política dum modelo, que vai jungido com um certo populismo, enfim, é populismo.

Aqui temos um bom referente para enfrentar estas cousas: o pai da filologia galega tratada cientificamente, D. Ricardo Carvalho Calero. Porém, escuita-se pouco a sua palavra e cala-se muito o seu nome sendo lembrado pouco na oficialidade. Isso contrapom-se com a teima de escrever o galego com umha normativa de inspiraçom espanhola. Do ponto de vista institucional do que é correcto ou nom, essa opçom é a que tem aval, e fai-se esse aval com posturas populistas que a comunicaçom e a pouca formaçom ou melhor a deformaçom que recebemos na escola dam-lhe força para justificar reacções que levam a ver perigos invasores, umha espécie de guerra com o português. Esse aval oculta um facto, galego e português som a mesma língua. Como se vai entom auto-invadir?

Somos umha mesma língua, no entanto agora somo-lo com duas normativas e isso é umha verdade óbvia, e para banir isso é fulcral o contacto individual de todos, pois quando está o português e o galego juntos chega-se à intimidade das palavras, das mesmas palavras, da mesma língua, das tuas palavras da infância, das palavras dos teus sentimentos. Essa realidade de sermos umha é óbvia, e todos devemos experimentá-la e compartilhá-la, e fazer isso por cima de preconceitos. A fricçom, o contacto, o conhecimento mútuo, é o melhor instrumento contra o populismo separador.

Os preconceitos som profundos? Evidentemente, por isso é importante o podermos ver as televisões portuguesas -podemo-lo fazer graças a internet-, mas necessitamos que cheguem com a mesma normalidade com que chegam as TVs espanholas, isso é, e será um facto normalizador. Infelizmente, em contra disso há todo tipo de preconceitos inclusive muitas vezes superiores aos que há frente ao inglês. As razões disso nom som racionais, é o populismo irracional e separador. Mas a verdade é que quando compartilhas a fala, a comunicaçom com qualquer pessoa do planeta que se expressa em português, sentes que compartilhas a mesma naçom da língua. Isso de compartilhar a naçom da língua acho que é um bom resumo do que eu quero expressar.

A.B. - Tu sabes da tradiçom galeguista dos Castelao e dos Antom Vilar Ponte –esse grande espírito movimentador da irmandade da Fala da Corunha-. Castelao até se exprimiu com grande radicalidade na sua polémica com Cláudio Sanchez Alabornoz, que o acusava de separatista e anti-castelhano; e como sabes ele dizia-lhe que nom era anti-castelhano e que só aspirava a que o galego se confundisse com o português

J.S. - Podíamos citar também D. Ricardo Carvalho Calero, e com ele sabermos que há duas alternativas: inserir-nos no romance ocidental, o nosso, ou no romance central, é dizer, no castelhano. Isto é o que está a acontecer aos poucos, dum jeito aparentemente imperceptível mas dum jeito firme e constante. Há um desleixo que nos leva cara aí. O único freio para isso ou para mudar esse deslizamento imperceptível é voltarmos ao nosso, ao romance ocidental, ao que é a nossa língua, ao português.

A.B. - A tua proposta, segundo eu entendo, é aproveitarmo-nos do G-8 lingüístico a que pertencemos, e deslocar os nossos balizamentos. Como atento ouvinte do teu programa Aberto por Reformas na Rádio Galega, acho que isso e o que fás, em grande medida .

J.S. - Essa ideia do G-8 lingüístico levada ao campo da música aparece-me mui própria. Nós somos um povo de artistas, e deu-se-nos a oportunidade pequena de nos desenvolver na nossa língua, na nossa cultura, na nossa identidade no âmbito da música. Somos umha canteira viçosa de criatividade. O tópico de que os galegos nom somos divertidos é completamente falso. Os divertidos eram os andaluzes, mas como querem que fôssemos divertidos se a primeira condiçom para o sermos era mudar de língua e, claro, dávamos imagem de gente rude e com pouca criatividade, mas agora, e na nossa língua, demonstrou-se o contrário, que somos umha potência criadora infinita, mas como somos um país pequeno a projeçom desta potência nossa avança mui devagar.

Há uns anos, decorreu em Compostela um congresso muito importante Latim em Pó. Vinhera do Brasil, entre outros, Wisnik e dixo-nos: o Brasil pode olhar-se em muitos campos e aspectos, com problemas de todo o tipo, mas em questom de criatividade o Brasil é o único país do mundo, além dos próprios Estados Unidos, que é centro, que nom é periferia. Todo o resto do planeta é periferia da cultura anglo-saxónica, todo o que chegar ao Brasil torna-se Brasileiro; a cultura anglo-saxónica é a Inglaterra misturada com a África, porém o Brasil, é Grécia, é Roma, que via Portugal e inseminados e misturados com África cria esse espaço central cultural que é o Brasil. A Galiza enquanto se afirmar como o que é, pertencente à Lusofonia, é um elemento central de criaçom.

Eis um exemplo. Aconteceu há dous dias, e foi essa experiência de Cantos na Maré que movimenta Ugia Senlhe, onde vês o Paulinho Mosca que chega desse ponto de criatividade central mundial que é o Brasil, e que simplesmente com umha olhada entra num contacto de criatividade e identidade com Xavier Diaz, músico deste nosso país pequeno. Deste contacto, nascem cousas. Paulinho nom conhecia a nossa realidade e agora ela passa a ser parte do seu universo musical, e do espaço da língua comum e o mesmo acontece com Xavier Diaz. Isso é maravilhoso. A linguagem universal da música e o espaço da comunhom de língua, e nesse espaço nós somos centro e podemos achegar a nossa criatividade a esse espaço central cultural, que tem um centro que é o Brasil, de criatividade central brutal.

«A Galiza enquanto se afirmar como o que é, pertencente à Lusofonia, é um elemento central de criaçom»

A.B. - Os galegos e galegas, como espanhois, somos treinados todos os dias polos meios, polas TVs nos sotaques diversos do universo hispânico. Porém, como galegos “balizados” e “interiorizados” no universo espanhol, somos impedidos do conhecimento da diversidade interna que há no espaço da nossa língua. Para mim, programas como o teu, ou o que se anda a fazer na música é um jeito prático de modificar isso.

J.S. - Se com a cultura espanhola nom se fizesse isso, um de Cantábria nom se entenderia com um de Cordova ou Cádis por pôr um exemplo. Aqui esse balizamento leva a que o populismo poda avalizar posturas ígnaras e populistas do tipo: e que estes querem que nós sejamos portugueses, ou é que os portugueses nom se entendem, ou estes lusistas querem a nossa fagotizaçom polo português, pois som inimigos do galego. Estes exemplos que venho de colocar, gera-os a incultura.

O sotaque mais fechado da nossa língua para um galego é o da capital do império, Lisboa, mas quando botas três dias nesta cidade, ao terceiro estás na tua casa, na casa normal da tua língua. Eu gosto muito de Lisboa. Vou-te contar um história que me passou ali. Estávamos num barzinho da Alfama cujo dono era galego e os clientes estivadores. Quando o dono se apercebe de nós sermos como ele, galegos, apresenta-nos aos seus fregueses como sendo galegos, como gente de onde ele é, saudamo-nos e dizem: muito bem, falai galego, falai com o vosso sotaque que nós percebemos-vos muito bem.

Que maravilha é falar com um angolano, um de Minas Gerais, um de qualquer recanto do mundo e ver que temos a mesma pátria da língua. Entre portugueses e brasileiros dá-se também, às vezes, problemas de compreensom quando som desconhecedores dos sotaques mútuos que tem a nossa língua, mas ninguém diz por isso que no Brasil ou Portugal nom falem a mesma língua.

Eis outro episódio. Eu gosto muito da concertina e do acordeom diatónico, e há umha aldeia do concelho de Entrimo que chamam Olelas. Olelas é umha aldeia empoleirada na montanha e cujos vizinhos mais próximos estám em Portugal na zona que chamam o Ribeiro. Eu tenho muita querença polo tema da concertina; o Sindo, um amigo, quando volveu de Nancy fixo umha casa, e na casa um pequeno estrado para tocar a concertina o dia da festa, e lá vou eu até Olelas, à sua casa para tocar e estar com ele.

Ali em Olelas as pessoas adultas som indistinguíveis ao falarem dos seus vizinhos do Ribeiro, nom sabes qual é o da Espanha e qual o de Portugal. Se querem fazer contraste com outros falam dos de Castro Laboreiro, do Crastro, como dizem os de Castro Laboreiro. Mas se falas com os meninhos de Olelas e os do Ribeiro, nos do Ribeiro a sua fala parece-se mais com o Lixboetês e as crianças de Olelas falam o galego da escola, modificado foneticamente e morfologicamente, é dizer, o galego espanholizado que falamos nós e com muito contraste com os dos seus adultos. O tema é um pouco triste, o que estám a fazer no poder connosco. Por isso, essa possibilidade de vermos e escuitarmos as televisões portuguesas é fundamental, é mui importante.

Em Castro Laboreiro comprei um livro cujo autor era dali, (agora nom lembro o nome) e que recolhia um glossário de palavras que, segundo o livro, só se diziam ali e punha como exemplo Arco da Velha para chamar o Arco Íris. É engraçado que pensem que isso é algo que só se dizia ali, e do outro lado. em Entrimo, na revista escolar do centro punham como exemplo de modismo lingüístico das gentes de Entrimo, o de chamarem os dias da semana de segunda feira, terça feira, quarta feira, quinta, sexta.

Na revista diziam que este é o único lugar do mundo onde tal acontece já que na Galicia diz-se luns, martes, mercores, xoves e venres, e para a revista a Lusofonia nom existia, é dizer, nom existiam os vizinhos do lado, que denominam assim os dias da semana. Que classe de professorado temos dando aulas, que formaçom se oferece se nom sabem explicar que essa é a forma corrente da Lusofonia e muito usual em toda a Galiza quando se resistiu à espanholizaçom. Estes exemplos mostram como a fronteira mental permanece muito rígida e como o sistema escolar é um reforçador afirmador dessa fronteira.

«Se tomamos a palavra, a nossa palavra, seremos protagonistas»

A.B. - Da tua experiência de construtor de pontes, de mover balizas, que é o que se pode fazer para nom sermos afogados com o processo minorador e arredista neste pequeno país que somos Galiza.

J.S. - A barreira que há nom é lingüística. Isso devemos esquecê-lo, a barreira que há chama-se política, chama-se ideologia, umha ideologia para a qual todo pensamento e formulaçom que pretende se achegar à universalidade da nossa língua é suspeito. Todos podemos fazer, cada um a partir da sua individualidade deve fazer todo o que puder para mudar isso. O que cada um poda fazer é muito importante.

O campo da música é umha referência fundamental e absoluta. Hoje, que artistas galegos estejam a colaborar com artistas portugueses, brasileiros, africanos, asiáticos é mui importante. No mundo da música galega está a se produzir umha revoluçom bem formosa que há que cuidar e mimar.

Há algum tempo, houvo um encontro da música galega no norte, graças ao mundo do celtismo, e que esteve muito bem. Hoje a música galega olha para África, o Brasil e Portugal, e esse virar para esse centro só tem umha explicaçom, a língua comum. Nesse caminho temos umha referência bem formosa, Ugia Senlhe, mas há mais, por exemplo, o que está a fazer Narf com Manecas Costas, esse criador, monstro no sentido mais pleno, da Guiné Bissau, essa maravilha que é a proposta Aló Irmão.

Quando estivo presente a música galega no Womex, em Sevilha, eles dérom um concerto. Ali no Womex estavam todo tipo de pessoas ligadas ao mundo da musica: editores, programadores, representantes... actuou Mutenroi de Ourense, actuou Budinho... todo estava mui bem, todo era maravilhoso e todo se correspondia com essa ideia que tinham da Galiza, mas, de súbito, aparece ali um rapaz de Compostela e um rapaz da Guiné Bissau, fazendo ritmos africanos e lançando essa mensagem Alo Irmão. Aquilo representava a Galiza e a Galiza era umha porta para descobrirem África, África expressada em galego, portanto em português... foi um momento maravilhoso.

Temos umha superestrutura do poder político, empenhada em manter essas balizas e que nom percebe essa criatividade central e infinita onde estamos inseridos, e a que teme.

Nós temos que trabalhar e irmos por aí, pola nossa língua que é internacional, e nós com ela passar de ser periferia a ser centro, e aproveitando as potencialidades que ela nos brinda ser referência cosmopolita. Se tomamos a palavra, a nossa palavra, seremos protagonistas.


(*) Entrevista realizada no dia 19 de Dezembro de 2008 nos locais do Novas da Galiza, em Compostela.

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Segunda, 05 Janeiro 2009 00:00

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Jurjo Souto, actualmente subdirector de programas da Rádio Galega

Alexandre Banhos - Mostrar a Lusofonia como espaço dos nossos interesses, eis a intençom que temos ao abrir esta nova secçom de conversas no PGL. A primeira tivo lugar com o músico e divulgador cultural Jurjo Souto, condutor na Rádio Galega do excelente programa Aberto por Reformas.

Acompanhem a seguir a entrevista em primeira mão:

Alexandre Banhos: Jurjo, como chegaste ao mundo da Música.?

Jurjo Souto: De cativo sempre me prestou tocar a guitarra e outros instrumentos. Nos anos do instituto sentim o impacto da música folque, mas nom estava claramente convencido, até que entom decidim fazer música popular do nosso tempo, que foi a d’ Os Diplomáticos. Isso era fazer música do nosso tempo mas com as referências do lugar de onde éramos todos nós, e com os companheiros de instituto formamos essa banda.

Nom continues a perguntar por aí, que começo a falar dessa história e já nom paro.

A.B. - Mas tivestes muito impacto?

J.S. - Sim, tivemos impacto. Nós significávamos ser da Corunha, do bairro de Monte Alto, de aí o nosso nome: Os Diplomáticos de Monte Alto. Agíamos ante essa campanha sobre a Corunha que lançava Paco Vazquez, onde se apresentava a cidade como sendo monolíngüe em espanhol. Nós queríamos reflectir a realidade que vivíamos na nossa contorna com muitíssimos galegofalantes, e na casa éramos muitos os que tínhamos de língua familiar o galego. A Corunha é umha cidade mui inserida na Galiza.

A.B. - A Corunha como sabes, foi durante muito tempo o cerne do galeguismo...... bom, do lusismo na Galiza

J.S. - Sim, o que ocorre é que estamos no de sempre. É bem triste que triunfe a nível popular essa campanha de imagem populista e localista, ainda que seja normal e entendível. É triste, porém, que em contextos académicos e no mundo da informaçom, pessoas que deviam estar bem informadas, a repitam constantemente, sem a criticar. Isso vai contra a tradiçom galeguista da Corunha.

Os símbolos da Galiza xurdírom na Corunha. Eu som mui crítico com a ideia de que esse tópico populista seja repetido por pessoas que conformam o mundo académico e da informaçom, e que para muitos deles esse tópico seja umha referência de analise.

A.B. - A Galiza está muito balizada e os limites do que somos e como somos estám marcados polo estado. Estes limites funcionam para muita gente como garantia dos seus lucros mensais, dos seus ordenados. Achas que a música pode contribuir para modificar esses limites, para romper o nosso balizamento.

J.S. - Sim, é claro, porque falamos no território da evidência e da evidência emocional, é dizer, pode haver todo o tipo de preconceitos, todo o tipo de normativas de legislaçom mas, de súpeto, escutas o Valdemar Bastos ou Adriana Calcanhoto, umha cançom deles, e toca-che no mais intimo, já que utiliza as tuas palavras, as que te definem e fam-no no terreno das emoções. As nossas palavras som comuns para muita gente do planeta.

Falando com Valdemar, lembro que dizia que África tinha muito que contar à Europa e nós temos a sorte de que haja umha parte da África com que podemos entender-nos directamente, e essa é a realidade, umha realidade emocional que transcende essas balizas as quais tu aludes, e a essas limitações normativas e institucionais.

«Somos umha mesma língua, no entanto agora somo-lo com duas normativas e isso é umha verdade óbvia»

A.B. - Como pode alimentar a lusofonia a nossa criatividade, achas que já estamos a fazê-lo no campo musical ou ainda noutros?.

J. S. - As palavras estám feitas para a comunicaçom. De súpeto, descobrimos algo bem formoso superando carências originárias do que na escola e nos meios recebemos, a visom do mundo que nos dérom e, para superar isso, chega o poder das nossas palavras, e essas palavras permitem-nos relacionarmo-nos directamente com outros países do planeta. Da América ou desse continente- país a que chamam o Brasil, até com zonas exóticas do oriente, ou da África. Nesse sentido a lusofonia situa-nos no curso dos tempos.

Estamos num tempo de intercomunicaçom planetária e a lusofonia permite-nos aos galegos sermos protagonistas deste tempo com a palavra própria. E essa realidade contrapom-se com essa visom que dam da cultura nossa como de resistência atrás dum baluarte, pois se se assomar nom poderá resistir, de cultura de museu, que se mete num baú e se esteriliza falando de preservar a identidade diante de possíveis ameaças do exterior, e para cúmulo, das ameaças do lusismo.

Mas nós temos que dar um passo para avante, e esse passo para avante vai ser graças ao poder da palavra que nos permite ser universais (digo isto a partir do orgulho e do respeito a todos os povos que nom tenham esta vantagem) e encontramos assim umha via para ser protagonistas neste século XXI

A.B. - Quer dizer, tu és dos que afirmam, como fai o reintegracionismo todo, que a nossa língua é internacional.-

J.S. - Com certeza. Além disso, voltamos ao de antes. Existe umha série de debates políticos, académicos, sócio-lingüísticos etc., mas diante disso está o poder da palavra e a experiência da comunicaçom, e é essa experiência que cada um de nós vivemos, e que agora quando afortunadamente podemos viajar mais, e nom só virtualmente, se nos fai presente; chegas a territórios como a Guiné Bissau ou o Rio Grande do Sul, e resulta que falam um galego exactamente como o teu, mas cuidado: eles nom sofrem a erosom que padecemos.

Vou contar umha anedota. Eu gosto muito de ilustrar as cousas com anedotas. Umha vez participei num congresso sobre línguas minoradas que tinha lugar em Helsínquia, e quando estávamos a piques de entrarmos no Parlamento finlandês para umha sessom que ia ter lugar ali, um senhor pediu-nos para lhe tirarmos umha fotografia. Começámos a falar, todos em galego, e perguntámos-lhe de onde era, e dixo-nos que da Nova Escócia, mas que morara seis ou sete anos no Rio Grande do Sul. Entre nós havia umha comunicaçom absolutamente diáfana e, e graças a isso, em minutos pudemos entrar para além da superfície, na sua intimidade.

A sua história, pessoal e lingüística, era fascinante. Professor de direito, pertencia a umha minoria de cerca de quatrocentas pessoas que na Nova Escócia, na outra beira do Atlântico, continuam a falar gaélico escocês. Dizia-nos que, quando ele vinha às ilhas britânicas e falava inglês, este estava absolutamente marcado por um sotaque norte-americano, mas que quando ele falava gaélico, a gente mais velha destes falantes na Escócia começavam a chorar, porque tinha o seu sotaque parado no tempo, o sotaque que levaram os seus avôs à Nova Escócia. Este episódio tam formoso permite que acedamos a isso que é o poder da língua, por ser a nossa umha língua internacional, e ultrapassar os limites inseridos no estado espanhol.

«A fricçom, o contacto, o conhecimento mútuo, é o melhor instrumento contra o populismo separador»

A.B. - A riqueza lingüística é um grande património, umha riqueza da humanidade e um orgulho para todos, e especialmente para os seus falantes. Tanto respeito merecem as 700 línguas que tenhem menos de 20.000 falantes como as outras, mas é bem certo que as línguas universais, as que eu chamo do G-8 lingüístico, estám numha situaçom muito melhor para desenhar um futuro para os seus falantes. Nós temos umha língua do G-8 lingüístico que tem que correr contra outra que nos minora, o espanhol, que é também do G-8 lingüístico. Que che parece que essa corrida a fagamos pejados, e que nos apresentemos a ela como se fôssemos, por ex. o bretom.

J.S. - Insisto, isso nom é um simples problema linguístico que nós tenhamos, é um problema político de imposiçom política dum modelo, que vai jungido com um certo populismo, enfim, é populismo.

Aqui temos um bom referente para enfrentar estas cousas: o pai da filologia galega tratada cientificamente, D. Ricardo Carvalho Calero. Porém, escuita-se pouco a sua palavra e cala-se muito o seu nome sendo lembrado pouco na oficialidade. Isso contrapom-se com a teima de escrever o galego com umha normativa de inspiraçom espanhola. Do ponto de vista institucional do que é correcto ou nom, essa opçom é a que tem aval, e fai-se esse aval com posturas populistas que a comunicaçom e a pouca formaçom ou melhor a deformaçom que recebemos na escola dam-lhe força para justificar reacções que levam a ver perigos invasores, umha espécie de guerra com o português. Esse aval oculta um facto, galego e português som a mesma língua. Como se vai entom auto-invadir?

Somos umha mesma língua, no entanto agora somo-lo com duas normativas e isso é umha verdade óbvia, e para banir isso é fulcral o contacto individual de todos, pois quando está o português e o galego juntos chega-se à intimidade das palavras, das mesmas palavras, da mesma língua, das tuas palavras da infância, das palavras dos teus sentimentos. Essa realidade de sermos umha é óbvia, e todos devemos experimentá-la e compartilhá-la, e fazer isso por cima de preconceitos. A fricçom, o contacto, o conhecimento mútuo, é o melhor instrumento contra o populismo separador.

Os preconceitos som profundos? Evidentemente, por isso é importante o podermos ver as televisões portuguesas -podemo-lo fazer graças a internet-, mas necessitamos que cheguem com a mesma normalidade com que chegam as TVs espanholas, isso é, e será um facto normalizador. Infelizmente, em contra disso há todo tipo de preconceitos inclusive muitas vezes superiores aos que há frente ao inglês. As razões disso nom som racionais, é o populismo irracional e separador. Mas a verdade é que quando compartilhas a fala, a comunicaçom com qualquer pessoa do planeta que se expressa em português, sentes que compartilhas a mesma naçom da língua. Isso de compartilhar a naçom da língua acho que é um bom resumo do que eu quero expressar.

A.B. - Tu sabes da tradiçom galeguista dos Castelao e dos Antom Vilar Ponte –esse grande espírito movimentador da irmandade da Fala da Corunha-. Castelao até se exprimiu com grande radicalidade na sua polémica com Cláudio Sanchez Alabornoz, que o acusava de separatista e anti-castelhano; e como sabes ele dizia-lhe que nom era anti-castelhano e que só aspirava a que o galego se confundisse com o português

J.S. - Podíamos citar também D. Ricardo Carvalho Calero, e com ele sabermos que há duas alternativas: inserir-nos no romance ocidental, o nosso, ou no romance central, é dizer, no castelhano. Isto é o que está a acontecer aos poucos, dum jeito aparentemente imperceptível mas dum jeito firme e constante. Há um desleixo que nos leva cara aí. O único freio para isso ou para mudar esse deslizamento imperceptível é voltarmos ao nosso, ao romance ocidental, ao que é a nossa língua, ao português.

A.B. - A tua proposta, segundo eu entendo, é aproveitarmo-nos do G-8 lingüístico a que pertencemos, e deslocar os nossos balizamentos. Como atento ouvinte do teu programa Aberto por Reformas na Rádio Galega, acho que isso e o que fás, em grande medida .

J.S. - Essa ideia do G-8 lingüístico levada ao campo da música aparece-me mui própria. Nós somos um povo de artistas, e deu-se-nos a oportunidade pequena de nos desenvolver na nossa língua, na nossa cultura, na nossa identidade no âmbito da música. Somos umha canteira viçosa de criatividade. O tópico de que os galegos nom somos divertidos é completamente falso. Os divertidos eram os andaluzes, mas como querem que fôssemos divertidos se a primeira condiçom para o sermos era mudar de língua e, claro, dávamos imagem de gente rude e com pouca criatividade, mas agora, e na nossa língua, demonstrou-se o contrário, que somos umha potência criadora infinita, mas como somos um país pequeno a projeçom desta potência nossa avança mui devagar.

Há uns anos, decorreu em Compostela um congresso muito importante Latim em Pó. Vinhera do Brasil, entre outros, Wisnik e dixo-nos: o Brasil pode olhar-se em muitos campos e aspectos, com problemas de todo o tipo, mas em questom de criatividade o Brasil é o único país do mundo, além dos próprios Estados Unidos, que é centro, que nom é periferia. Todo o resto do planeta é periferia da cultura anglo-saxónica, todo o que chegar ao Brasil torna-se Brasileiro; a cultura anglo-saxónica é a Inglaterra misturada com a África, porém o Brasil, é Grécia, é Roma, que via Portugal e inseminados e misturados com África cria esse espaço central cultural que é o Brasil. A Galiza enquanto se afirmar como o que é, pertencente à Lusofonia, é um elemento central de criaçom.

Eis um exemplo. Aconteceu há dous dias, e foi essa experiência de Cantos na Maré que movimenta Ugia Senlhe, onde vês o Paulinho Mosca que chega desse ponto de criatividade central mundial que é o Brasil, e que simplesmente com umha olhada entra num contacto de criatividade e identidade com Xavier Diaz, músico deste nosso país pequeno. Deste contacto, nascem cousas. Paulinho nom conhecia a nossa realidade e agora ela passa a ser parte do seu universo musical, e do espaço da língua comum e o mesmo acontece com Xavier Diaz. Isso é maravilhoso. A linguagem universal da música e o espaço da comunhom de língua, e nesse espaço nós somos centro e podemos achegar a nossa criatividade a esse espaço central cultural, que tem um centro que é o Brasil, de criatividade central brutal.

«A Galiza enquanto se afirmar como o que é, pertencente à Lusofonia, é um elemento central de criaçom»

A.B. - Os galegos e galegas, como espanhois, somos treinados todos os dias polos meios, polas TVs nos sotaques diversos do universo hispânico. Porém, como galegos “balizados” e “interiorizados” no universo espanhol, somos impedidos do conhecimento da diversidade interna que há no espaço da nossa língua. Para mim, programas como o teu, ou o que se anda a fazer na música é um jeito prático de modificar isso.

J.S. - Se com a cultura espanhola nom se fizesse isso, um de Cantábria nom se entenderia com um de Cordova ou Cádis por pôr um exemplo. Aqui esse balizamento leva a que o populismo poda avalizar posturas ígnaras e populistas do tipo: e que estes querem que nós sejamos portugueses, ou é que os portugueses nom se entendem, ou estes lusistas querem a nossa fagotizaçom polo português, pois som inimigos do galego. Estes exemplos que venho de colocar, gera-os a incultura.

O sotaque mais fechado da nossa língua para um galego é o da capital do império, Lisboa, mas quando botas três dias nesta cidade, ao terceiro estás na tua casa, na casa normal da tua língua. Eu gosto muito de Lisboa. Vou-te contar um história que me passou ali. Estávamos num barzinho da Alfama cujo dono era galego e os clientes estivadores. Quando o dono se apercebe de nós sermos como ele, galegos, apresenta-nos aos seus fregueses como sendo galegos, como gente de onde ele é, saudamo-nos e dizem: muito bem, falai galego, falai com o vosso sotaque que nós percebemos-vos muito bem.

Que maravilha é falar com um angolano, um de Minas Gerais, um de qualquer recanto do mundo e ver que temos a mesma pátria da língua. Entre portugueses e brasileiros dá-se também, às vezes, problemas de compreensom quando som desconhecedores dos sotaques mútuos que tem a nossa língua, mas ninguém diz por isso que no Brasil ou Portugal nom falem a mesma língua.

Eis outro episódio. Eu gosto muito da concertina e do acordeom diatónico, e há umha aldeia do concelho de Entrimo que chamam Olelas. Olelas é umha aldeia empoleirada na montanha e cujos vizinhos mais próximos estám em Portugal na zona que chamam o Ribeiro. Eu tenho muita querença polo tema da concertina; o Sindo, um amigo, quando volveu de Nancy fixo umha casa, e na casa um pequeno estrado para tocar a concertina o dia da festa, e lá vou eu até Olelas, à sua casa para tocar e estar com ele.

Ali em Olelas as pessoas adultas som indistinguíveis ao falarem dos seus vizinhos do Ribeiro, nom sabes qual é o da Espanha e qual o de Portugal. Se querem fazer contraste com outros falam dos de Castro Laboreiro, do Crastro, como dizem os de Castro Laboreiro. Mas se falas com os meninhos de Olelas e os do Ribeiro, nos do Ribeiro a sua fala parece-se mais com o Lixboetês e as crianças de Olelas falam o galego da escola, modificado foneticamente e morfologicamente, é dizer, o galego espanholizado que falamos nós e com muito contraste com os dos seus adultos. O tema é um pouco triste, o que estám a fazer no poder connosco. Por isso, essa possibilidade de vermos e escuitarmos as televisões portuguesas é fundamental, é mui importante.

Em Castro Laboreiro comprei um livro cujo autor era dali, (agora nom lembro o nome) e que recolhia um glossário de palavras que, segundo o livro, só se diziam ali e punha como exemplo Arco da Velha para chamar o Arco Íris. É engraçado que pensem que isso é algo que só se dizia ali, e do outro lado. em Entrimo, na revista escolar do centro punham como exemplo de modismo lingüístico das gentes de Entrimo, o de chamarem os dias da semana de segunda feira, terça feira, quarta feira, quinta, sexta.

Na revista diziam que este é o único lugar do mundo onde tal acontece já que na Galicia diz-se luns, martes, mercores, xoves e venres, e para a revista a Lusofonia nom existia, é dizer, nom existiam os vizinhos do lado, que denominam assim os dias da semana. Que classe de professorado temos dando aulas, que formaçom se oferece se nom sabem explicar que essa é a forma corrente da Lusofonia e muito usual em toda a Galiza quando se resistiu à espanholizaçom. Estes exemplos mostram como a fronteira mental permanece muito rígida e como o sistema escolar é um reforçador afirmador dessa fronteira.

«Se tomamos a palavra, a nossa palavra, seremos protagonistas»

A.B. - Da tua experiência de construtor de pontes, de mover balizas, que é o que se pode fazer para nom sermos afogados com o processo minorador e arredista neste pequeno país que somos Galiza.

J.S. - A barreira que há nom é lingüística. Isso devemos esquecê-lo, a barreira que há chama-se política, chama-se ideologia, umha ideologia para a qual todo pensamento e formulaçom que pretende se achegar à universalidade da nossa língua é suspeito. Todos podemos fazer, cada um a partir da sua individualidade deve fazer todo o que puder para mudar isso. O que cada um poda fazer é muito importante.

O campo da música é umha referência fundamental e absoluta. Hoje, que artistas galegos estejam a colaborar com artistas portugueses, brasileiros, africanos, asiáticos é mui importante. No mundo da música galega está a se produzir umha revoluçom bem formosa que há que cuidar e mimar.

Há algum tempo, houvo um encontro da música galega no norte, graças ao mundo do celtismo, e que esteve muito bem. Hoje a música galega olha para África, o Brasil e Portugal, e esse virar para esse centro só tem umha explicaçom, a língua comum. Nesse caminho temos umha referência bem formosa, Ugia Senlhe, mas há mais, por exemplo, o que está a fazer Narf com Manecas Costas, esse criador, monstro no sentido mais pleno, da Guiné Bissau, essa maravilha que é a proposta Aló Irmão.

Quando estivo presente a música galega no Womex, em Sevilha, eles dérom um concerto. Ali no Womex estavam todo tipo de pessoas ligadas ao mundo da musica: editores, programadores, representantes... actuou Mutenroi de Ourense, actuou Budinho... todo estava mui bem, todo era maravilhoso e todo se correspondia com essa ideia que tinham da Galiza, mas, de súbito, aparece ali um rapaz de Compostela e um rapaz da Guiné Bissau, fazendo ritmos africanos e lançando essa mensagem Alo Irmão. Aquilo representava a Galiza e a Galiza era umha porta para descobrirem África, África expressada em galego, portanto em português... foi um momento maravilhoso.

Temos umha superestrutura do poder político, empenhada em manter essas balizas e que nom percebe essa criatividade central e infinita onde estamos inseridos, e a que teme.

Nós temos que trabalhar e irmos por aí, pola nossa língua que é internacional, e nós com ela passar de ser periferia a ser centro, e aproveitando as potencialidades que ela nos brinda ser referência cosmopolita. Se tomamos a palavra, a nossa palavra, seremos protagonistas.


(*) Entrevista realizada no dia 19 de Dezembro de 2008 nos locais do Novas da Galiza, em Compostela.

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Sou Ricardo Windsor Aveiro, ainda que nasci no Brasil criei-me na Galiza após os dez anos... Pelo que já falava a língua de Camões e Rosalia de Castro com sutaque brasileiro quando cheguei à terra de Castelão... Não sou nacionalista nem galego nem espanhol, sou cidadão do mundo, mas do mundo livre. Gosto da liberdade dos indivíduos e dos povos. Os que não concordem com isto, obrigado, mas nada "pintam" lendo este blog. Rejeito profundamente o terrorismo e qualquer jeito de violência.
Paris, 14-9-07
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